Borboleta sertaneja - Homero Massena

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sábado, 29 de maio de 2010

23 DE MAIO

Moleque da Prainha de Vila Velha, tinha sete anos em 1955, e daí em diante acompanhei as comemorações da data maior do capixaba: o aniversário da colonização do solo espírito-santense, iniciada por Vasco Fernandes Coutinho, em 23 de maio de 1535.
As alvoradas festivas aconteciam diante do monumento que chamávamos de “pirulito”, pertinho da minha casa. Acordado com salva de canhões à beira mar corria para a pracinha ou aguardava empoleirado na janela, o desfile das autoridades.
Na década de 1950, seguiam a pé pela Rua Luciano das Neves, da Prainha para o palanque armado em frente à prefeitura, que foi demolida. A nobre comitiva acompanhava a banda do 38º BI, que arrepiava com dobrados bem ensaiados. Regida pelo maestro Benício Cavalcante era muito apreciada na cidade. Nas noites de quintas-feiras fazia retretas no coreto (demolido) que existia junto ao obelisco, marco da colonização.
Na década de 1960, a alvorada musical com a banda marcial da Marinha, bem maior e espalhafatosa (características do estilo) substituiu a sonora e virtuosa banda de música do exército, e as autoridades passaram a desfilar de carro.
A cerimônia acontecia junto ao monumento inaugurado em 1935, para marcar os 400 anos da chegada do Donatário Vasco Coutinho. Singelo, era uma pequena plataforma circular de 1,20 m. de altura com escada frontal. Do seu centro emergia uma coluna piramidal, semelhante às “agulhas de Cleópatra”, existentes em diversas capitais pelo mundo. Na base da coluna havia uma urna fechada com placa de bronze, presa por quatro parafusos grandes.
Naquele tempo crianças brincavam sozinhas na praça, mesmo à noite. Com uma moeda, usada como chave de fenda, a molecada mais velha abria a urna e dela retirava o crânio de Vasco Coutinho, para assustar os menores. O crânio e alguns ossos do Donatário foram depositados ali, depois de vagar 30 anos por armários da prefeitura. Estavam sepultados no interior da nossa primeira igreja, localizada à beira mar, demolida no início do séc. XX, para ser feito o traçado das atuais ruas de Vila Velha.
Um dia notamos o desaparecimento da relíquia. A criançada ficou alvoroçada e começou a investigar. Descobrimos que o irmão mais velho de um dos moleques havia passado no vestibular de medicina. Para estudar os ossos do crânio, ele encheu o espaço do cérebro com feijão e umedeceu as sementes: quando elas germinaram aumentaram de volume, separando ossos soldados de maneira muito eficiente pela Natureza.
No início da década de 1970, a placa da urna desapareceu. Ela ficou aberta, servindo de depósito para latas e trapos dos lavadores de carro, até o monumento ser restaurado e transformado num relicário. No dia 23 de maio de 1993, em cerimônia solene, com a presença do governador, foram colocados na urna: mensagens das autoridades e populares; jornais do dia; pautas dos noticiários das TVs e Rádios; livros da nossa história; cédulas e moedas circulantes; amostras de água das nossas praias, de todos os mananciais, rios, córregos do município e da Cesan; amostras do ar; areia das praias e uma coleção de desenhos escolares. Foi lacrada com solda e cimento. A nova placa informava que só deveria ser aberta após 50 anos; mas o relicário não resistiu a uma década: o monumento foi inteiramente demolido pela prefeitura em 2002. Não sobrou vestígio do alicerce.
No séc. XXI, adultos tomam o lugar das crianças irresponsáveis do século passado, apagam vestígios da nossa história, demolindo nossa identidade.
Kleber Galvêas, pintor. Tel. (27) 3244 7115 www.galveas.com atelie@galveas.com maio/2010

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